30 de mai de 2009

A Menina Sem Sorriso



A mãe saiu para trabalhar.

Ela brincava de boneca sorrindo.

Ela tinha 9 anos, que fez no sábado.

Ele tinha 47, que fez a uns 4 meses atrás.

Ela brincava de boneca sempre na varanda, sozinha.

A empregada estava doente.

Ele teve de ficar com ela.

Ele puxou a menina pelo braço.

Ela gritou.

Ele a levou para o quarto.

O quarto estava escuro.

Ele tirou a face sorridente dela.

Ela não estava sorrindo.

Ela estava chorando.

Ela sangrou.

Ela gritou.

Ele tinha cara de malvado, dizia sempre a mãe.

A vizinha chamou a polícia.

A polícia entrou na casa.

Ele foi preso.

A menina chorava.

A vizinha consolava.

A mãe chegou do trabalho.

29 de mai de 2009

Todos Os Meus Sentidos




Estou aqui, sozinha, em meu quarto.
Chove lá fora.
E seus braços não estão a me aquecer.
Te ligo. Ligo, ligo, ligo, ligo...
O telefone toca...toca, toca, toca, toca, toca.
Você não atende.
Gostaria de saber onde pensas.
O que teus braços aquecem,
senão eu, senão meu corpo.
Os meus sentidos clamam tua pele.
Minha respiração quer teu cheiro,
teu respirar ofegante junto ao meu.
Meus dedos querem desalinhar teus cabelos,
minhas unhas querem marcar tua carne.
Meus ouvidos querem ouvir teus gemidos,
tuas mentiras doces de amor, teus sorrisos,
sentir teus lábios provocantes,
me causando arrepios por todo corpo.
Meus olhos querem ver tua face,
tuas mãos, teus delírios, teus sentidos sentindo.
Meus olhos querem olhar nos seus, e ver a cor deles.
Meus lábios querem sentir teus beijos,
molhados, sedutores, aliciantes, mordidos.
Minha boca deseja sentir-te, por inteiro,
te provocar, descansar as mãos, acariciar-te, seduzir-te.
Minha pele inflama, só em pensar no suor da tua, compartilhado.
Meus poros querem teu suor, querem nosso calor.
Minhas pernas querem aquecer as tuas,
entrelaçar-se.
Meus braços querem te afagar, apertar-te, envolver.
Meu corpo inteiro te quer,
te deseja, te procura, te reclama.
Minha fenda quer sentir-te quente,
cada vez mais perto, perto e perto, até estar dentro, umideça-me.
Te ligo. Ligo, ligo, ligo, ligo...
O telefone toca...toca, toca, toca, toca, toca.
Você não atende.
Ainda continua chovendo.
Meu corpo quer chama, te chama, me queima.
Te ligo, ligo, ligo...
Você não atende.
Eu e meu corpo queremos você com todos os teus sentidos aqui, em mim.

26 de mai de 2009

Festa A Fantasia




Sons colorindo todos os cantos do salão,
Casais dançavam e sorriam.
Uns se conheciam,
outros tentavam se descobrir.
Eu, sozinho, máscara branca na face,
olhando para tantos rostos disfarçados,
tonto, mas a rubra máscara agradou.

A rubra máscara sorria.
As cores nos lembram gostos,
odores, lugares, outras cores.
E a rubra máscara continuava a sorrir.

Estava divagando os olhos,
daquele rosto secreto,
por todo o salão.

Se ninguém a tirou para dançar,
que eu seja o primeiro.
-Permita que a melodia nos pinte como o verão?

Ela aceitou, e a máscara sorriu novamente,
rubra sorridente, vermelha.
Seus olhos,
seus lábios,
vermelhos, quase que me queimam.¹

Meus olhos tentaram arrancar tua máscara,
meus dedos tocavam suas mãos,
nossos lábios conversavam,
os lírios vermelhos sobre a mesa perderam a cor,
sua máscara era tão rubra que até o sangue de minha pele me fugiu.
Vida, acabaria a minha, a meia-noite, pois se fostes de mim.
Seus olhos, seus lábios, vermelhos, me deixavam na saudade.

Te acompanhei, revelei minha face, e sorristes.
Seus lábios, vermelhos, quase que me queimaram.

Mas secretaste a dona do sorriso.
Sadicamente fostes de mim.
Arrancou-me o sono,
por noites,
e do teu rosto, guardo a máscara,
os lábios, o sorriso, os olhos, vermelhos...
rubros como o sangue que fugiu de mim quando te conheci.

¹Música:Vermelho - Vanessa da Mata

20 de mai de 2009

Uma Noite No Paraíso

No escuro da noite,
ele me vem.
E ficamos os dois, nos dois, nós dois.

Nem bate mais na porta.
Já tem a chave.
Entra quando quer,
pega qualquer cd e põe pra tocar.

Escolhe a música,
percebo sua presença e me deixo no armário.
No mais, sou tua.

De todas as tuas fomes,
a de nós dois é maior.
Entra em nosso quarto,
me leva travada em teu corpo,
ardente, mortificador.

Como não render-se?

Ao toque na nuca...
Ao sorriso no sorriso.
As palavras ao pé do ouvido...
As mãos que sobem
e descem numa dança aliciante...
aos beijos molhados de futuras intenções.

Dentro do quarto,
no teu laboratório,
estuda-me.

Mapeia todo objeto da pesquisa,
estuda-o de perto...
de cima,
de baixo,
de lado...
Adentra pelos meios e me toma.

Como não render-me?

Tuas mãos tão masculinas,
pousando-me no nosso leito,
mas nosso do que meu e teu,
me afagando,
me prendendo,
me deixando sem saída...
como se eu precisasse dela...

Todas as nossas loucuras...
todos os teus gemidos,
todos os nossos desejos, realizados,
a noite é uma criança,
nascendo de nosso delírio.

E... ainda melhor que nossas noites,
são as manhãs...
sempre acordadas do teu lado...
com o cheiro de nós dois,
em todo o quarto.

17 de mai de 2009

Ao Som Da Lira (versão dele)




Cheguei a festa e tu já estavas. Lindo vestido. Eu fiquei encantado. Não vermelho, nem vinho. Uma cor inventada pelos olhos apaixonados, eu diria. Não queria ir, mas os amigos, já sabe né? Você estava com as amigas. Sorria. Um anjo. Angelical até na bebida. Estava tomando refrigerante. Festa refinada, pedi um vinho. Queria me aproximar. Mas, sempre fui desastrado. E, então, desastrosa foi a minha chegada perto de ti. Soberana. Tomou meu coração quando me acolheu. Queria ver minha respiração. Pensei: Me beija logo! É amor a primeira vista! Mas se é amor tem que torturar. Tem que esperar. Tem que sofrer. Tem que doer. Tem que amadurecer. Eu cai na sua frente porque não vi o maldito degrauzinho da sala. Quando eu ia lá não tinha aquele degrau, eu acho. Você me socorreu. Eu achei que tinha morrido, afinal, estava nos braços de um anjo. Até a lira se fez presente enquanto eu caí. Que loucura. Conversamos a noite toda e eu consegui te levar em casa. Eu estava ancioso. Mas você é serena. Parece que fazia de pirraça. Mulheres, sempre nos desafiam em nossos limites. Sabem que somos mais anciosos. Sabem de tudo. Por isso as amo tanto. Perversas. No dia seguinte fui te ver. Você estava trabalhando. Só eu que não trabalhava pensando em você. Como é que você conseguia trabalhar depois daquele papo gostoso? Céus! Devo ser desinteressante. Entristeci. Você me ligou. Eletrizei. Me corpo sofreu uma descarga elétrica. Fiquei louco. Queria te ver. Queria era te puxar pela voz no telefone. Ah, a paixão! Nos faz de bobos... Saímos. E várias vezes. Parece até a Índia. Demorou alguns dias para o primeiro beijo. Suplício. Mas é bom. Esperar pelo que se ama é maravilhoso. Só não quando nos atrasamos para o teatro e você demora no banho. Mas depois de pronta, o teatro que se dane. Só tenho olhos para você. Passados os anos. Brigas, tormentos, ciúmes, obstáculos... Descobri que a vida só vale a pena do lado de quem amamos. A vida só vale a pena com, por e de baixo, do lado, encima de muito amor. Ah, chega, eu te amo. Me beija logo.

Ao Som Da Lira (versão dela)

Desastrado, mas até isso em ti é sedutor. Minhas amigas solteiras como eu me chamaram para a festa. Me prometeram que teria homem bonito. Coloquei o vestidinho rosa que eu mais gosto e fui. Mas estava tão cansada do trabalho... Mas, queria conhecer alguém, estava cansada de estar solteira. Minhas amigas sempre falam que homem demora, mas cai aos seus pés. E, você, literalmente caiu. Eu ri por dentro, mas ajudei imediatamente. Você me olhou intensamente, me deu vontade de te beijar, mas era altamente louco da minha parte. Você é tão lindo... Tímido e isso é muito bonitinho. Adorei. Conversamos a noite toda e é como se nós já vivêssemos juntos a anos. Me levou em casa e eu gelei. Queria te beijar, mas uma amiga minha disse, mesmo sem te conhecer, que você era galinha. Disse que você tinha cara. Então, resolvi machucar. Se você estivesse mesmo interessado ia ter que esperar. Como eu podia ser tão cruel? No dia seguinte fingir trabalho, minha chefe achou que eu estava doente. Completamente aérea. A música que tocou quando nos olhamos ainda tocava na minha cabeça. Dias e dias nos vendo e aconteceu o primeiro beijo. Suas mãos... seus lábios, nossa, arrepiei. E você ficou vermelhinho, perfeito. Continuamos saindo e hoje, juntos, nossa, bom da vida é te amar. Você é todo carinhos, até quando me atraso. E olha que um dia você me disse que odiava atrasos. Não entendo. Deve ser o amor. Construído a cada dia. Homens, só se conhece no cotidiano. Mas, apesar dos apesares, eu te amo querido.

10 de mai de 2009

Só Pra Chamar Sua Atenção

Me vejo tão pequena diante de seus sorrisos,
tão mínima e tão invisível,
pois não me vês como eu quero que me veja,
me vês com teus olhos,
se eu pudesse mudar a cor deles...
Quem sabe castanhos mais claros,
quem sabe um verde mais límpido.
Claridade perfeita para ver o que ando a mostrar faz tempo.

Gostaria que me visse como eu quero que veja.
Penso em flores, versos, vestidos e sorrisos,
só pra chamar sua atenção.

Me faço sol se assim for preciso,
caio em chuvas e chuvas se necessário for,
pra chamar sua atenção,
só pra chamar sua atenção.

Quem sabe pinto o cabelo de vermelho,
mesmo que comigo não combine,
ou de verde, ou azul, mas diferente, menos real.
Quem sabe assim?

Queria aparecer em todos os teus cantos,
dormir no teu sonho,
aparecer na tua televisão.
Cantar teu som favorito na rádio,
aquela nossa canção, que ainda é só minha,
sem interrupção, faço isso se necessário for,
só pra chamar sua atenção.

Troco o outono pelo inverno,
a primavera pelo verão,
se tudo isso preciso for,
só pra chamar sua atenção.

Me vejo tão pequena,
mínima, iníqua, a menor que for,
mas me faço em versos,
poemas, prosas e poesias,
se tudo isso preciso for,
se tudo isso necessário for.
Só pra chamar sua atenção.

Como fazer poesia?

Tem receita não. Desculpa se você queria uma receita pronta. Mas não tem. Bateu na porta errada. Não tem ninguém em casa. Para fazer poesia tem que ter intimidade com ela. Eu não tenho. Ela que tem comigo. A poesia te toma. Não pode chamar ela. Ela te chama. Ela te invade. Ela se coloca no papel. Só lhe ordena que a escreva. Ordena pois é soberana. Ela que dá as cartas do jogo. Sou apenas mais uma jogadora sem sorte. Me rendo. Desculpa mais uma vez moço eu não poder dizer como fazer uma boa poesia, mas é que eu não sei. Pergunta a ela e quando souber me conta. Acho que eu não sei muito dizer porque eu sou apaixonada por ela. Ela me encanta. Me conquista. Ela, ela, somente ela. Como fazer poesia? Não sei. Ela se faz por mim, por você e por ela mesma.

Medo do fim de tudo

Ontem me incomodei com tudo isso que está acontecendo. Vi expressões de perda total, vi medo no olhar de um ser humano, que diz que perdeu tudo com as chuvas. Chuvas. Elas estão tão intensas. Até parecem mulheres com tpm. Tenho medo. Medo do fim do mundo. Medo do fim de tudo. Medo do meu fim. Quem está preparado? Não consegui sorrir. Me incomoda saber que não posso ajudar todos. Me dá vontade de ajudar. Sim, tenho vontade de ajudar. Mas minha ajuda é pouco. Meu incomodar ainda é muito pouco. E a cada dia mais chuvas. Estou escrevendo e pela janela vejo as torrenciais. E as pessoas morrendo. E as pessoas perdendo suas casas. E as pessoas deixando de serem pessoas para serem números. Números da miséria, número de mortos, número de desabrigados. Tem como ficar feliz? Me convidaram para ir ao teatro assistir comédia. Como posso assistir comédia? A comédia me fará rir? Não quero rir, quero chorar com eles. Quero ajudar eles. Os números. As pessoas. Me incomoda o Brasil ser tão múltiplo e tão desigual. Me incomoda saber que parece o fim e não somos bons o suficiente para ajudar todos. Me incomoda saber de tudo isso. Será que ser cega resolveria? Eu tenho medo. Tenho medo do fim de tudo. Tenho medo do fim dos poetas. Tenho medo do fim da poesia. Tenho medo do fim de tudo.